- EP Bônus Sinal de Vida
NOTAS DO EPISÓDIO
Os relatos narrados no episódio sobre a vida do Pereira Lima foram retirados do Jornal Última Hora, que publicou as páginas dos diários dele em 1964. Os textos contam detalhes sobre várias fases de sua vida, inclusive a época em que esteve na prisão da Ilha Anchieta.
Página 1 – Introdução (13/jan/64)
P.2 – O Crime Dele (14/jan/64): Num bar, em 1940, Pereira Lima encontra o primeiro sargento Teodomiro de Freitas Santos. Pereira fala boa noite para todos. Teodomiro exige continência, Pereira o faz. Porém Teodomiro manda ele fazer evoluções de ordem-unida. Pereira se nega por achar humilhante. Por isso leva um tapa. Em seguida, saca uma pistola e dá um tiro na cabeça de Teodomiro e um no pescoço de Juliano Machado Mota. Condenação: 31 anos.
P.3 – Sua Primeira Fuga (15/jan/64): Pereira conta detalhes sobre como conseguiu fugir da detenção, fugiu para Salvador. Quando sente saudades dos pais, volta para São Paulo, onde descobre que os pais foram intimidados e humilhados pelos militares. Em uma manhã já acordou rendido por militares, jornalistas e seiscentos homens fardados botando cerco no prédio. No jornal disseram que ele e o irmão dele trocaram tiros com a polícia.
P.4 – Chegada à Ilha Anchieta (16/jan/64): No ano de 1948, 24 de maio, saiu da Casa de Detenção de São Paulo e foi enviado para o Instituto Penal da Ilha Anchieta. Antes recebeu um batismo no meio da estrada: espancamento. Foi salvo pelo motorista. Sadi, o diretor, recebe eles, dizendo que “A sociedade os mandou aqui afim de morrerem aos poucos, não se esqueçam disso.” A situação dos alojamentos é lastimável, sua primeira noite é cheia de percevejos, ratazanas, borrachudos e morcegos.
P.5 – Torturas (17/jan/64): Maus tratos dentro da detenção. Eram tratados como escravos. Atilio e seu sadismo, jogava caneca de água fervente nos presos que lhe pediam comida. Portugal de Souza Pacheco, chefe de disciplina, gravava o Mapa do Brasil nas costas de prisioneiros com chibata.
P.6 – Mais Torturas (18/jan/65): Detalhes das torturas que aconteciam na Praia Grande (Praia das Palmas), com umbigo de boi (chibata feita com pênis de boi esticado e ressecado), amarravam os presos em argolas em uma árvore longe da vila. Torturas relatadas no episódio.
P.7 – Orgias no hospital (21/jan/64): Pereira ralata que os policiais realizavam orgias com prostitutas feitas no hospital. Eles tiravam os presos enfermos de lá e os jogavam nas celas. Pereira escreveu uma carta para a Corregedoria, mas eles avisaram o diretor Sadi e não fizeram nada. A Dona Nana, quem ajudou Pereira a postar nos correios a carta, foi mandada embora da ilha, junto com seu marido, o telégrafo.
P.8 – Início da rebelião (22/jan/64): Mais maus tratos: 20 de junho de 1952, Pereira estava com amigdalite, mas Sadi não deixou ele ser examinado no continente. Tinha pessoas com escorbuto, Pereira reclamou, dizendo que aquilo era desumano, Sr. Mario deu na cara dele com uma tabuleta de chamada. Pereira ficou quieto.
P.9 – Mais detalhes sobre a Rebelião (23/jan/64)
P.10 – Rebelião: Sadi pede piedade (24/jan/64): Presos renderam o diretor Sadi na casa dele. Sadi suplicou por clemencia. Os presos queriam matá-lo. Pereira Lima se coloca na frente com uma Winchester em mãos, ordenando que não façam nada com Sadi.
P.11 – Rebelião: Fugindo da Ilha (28/jan/64): Presos pegam as lanchas, embarcando no barco “Carneiro da Fonte” e chegando no continente. Entram na mata.
P.12 – Rebelião: Caminhada pela mata (29/jan/64): Fugitivos precisam de recursos, um deles rouba um caiçara, mas Pereira Lima faz ele devolver.
P.13 – Rebelião: Recaptura (30/jan/64): Muitos dos fugitivos foram recapturados e muitos assassinados. “Estarrecido presenciei por diversas vezes, com binóculos que trazia comigo aquela chacina.”. Pereira sobrevive no mato, passando fome, comendo raposa.
P.14 – Cadeia de Cunha (31/jan/64): Foram pegos e encaminhados para a Cadeia de Cunha. Lá os policiais se revoltaram com o exercito, exigindo que Pereira, Mocoroa e Jerico fossem executados.
P.15 – Torturas nas recapturas (03/fev/64): “Todo o inquérito havia sido feito sob coação. A Polícia (…) espancava dia e noite os presos”
A busca pela raia-chita impactou as nossas vidas para sempre. Contamos uma história fantástica com um registro nunca antes feito pela ciência brasileira. Mas ao mesmo tempo nos sentimos presos a essa história, com a plena certeza de que jamais viveremos algo assim novamente. Em meio à desilusão, nos deparamos com duas histórias fantásticas da Ilha Anchieta: um acidente de avião e um diário de um detento.
[Daqui pra frente, esse texto contém spoilers!]
A primeira história é sobre o avião DC3 PP-ANX, que caiu no Pico do Papagaio, na Ilha Anchieta em 1957. Descobrimos que esse avião revelava um tesouro e uma inspiração.
Na segunda história, nos aprofundamos na vida de João Pereira Lima, ex-detento do Instituto Correcional da Ilha Anchieta que participou da rebelião e fuga em massa de 1952. Pereira Lima era um rapaz que sonhava em ser militar, mas, por conta de um erro, sua vida pra sempre será marcada pelo estigma de “incorrigível”. Esse diagnóstico foi dado pelo Instituto de Biotipologia Criminal, um órgão respeitado na época, cujo principal papel era diagnosticar os presidiários entre “normais” e “doentes”. Contar a história de Pereira Lima não só nos ajudou a entender as transformações do sistema prisional de São Paulo, mas também nos resgatou para a importância do controle sobre nossa própria narrativa.
Nova temporada a caminho!
Essa história nos encoraja a dar os próximos passos do Sinal de Vida: a produção de uma nova temporada! Com uma nova expedição que envolve estudos ecológicos e antropológicos na Amazônia com o povo Waimiri-Atroari.
Para essa temporada acontecer, precisamos da sua ajuda! Contribua aqui financeiramente e faça parte dessas histórias incríveis e inspiradoras sobre viagens de campo e as vidas que ali se encontram.
VOCÊ OUVIU
Gabriela Longo
(@gabi_longo)
Bióloga, educadora popular e comunicadora da ciência, a Gabi adora uma aventura, e está em constante movimento. Ela já atuou em diversos projetos de conservação, de tartarugas marinhas, baleias jubarte e até lobos-guará; e de educação popular e social, e hoje é mestranda no Programa Interunidades em Ensino de Ciências, na USP. A Gabi é uma das produtoras e narradoras do podcast Sinal de Vida, um projeto que ela tem certeza que mudou a sua.
Lucas Andrade
(@LukeraAndrade)
O Lucas é biólogo, desenhista e especialista em comunicação pública da ciência (UFMG). Ele nasceu e cresceu no Jardim Iporanga, periferia da zona sul de São Paulo, e sempre buscou conectar seus dois mundos por meio da arte, de narrativas… e da resenha! Ele é um dos produtores do podcast Alô, Ciência?, faz parte do OCorre Coletivo, e já publicou diversos quadrinhos, e um deles, o “Inimigo Invisível”, ganhou o prêmio HQ Mix! O Lucas é um dos produtores e narradores do podcast Sinal de Vida, e ainda assina as artes de cada um dos episódios!
Érica Vieira dos Santos
Érica é mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo. Autora de “João Pereira Lima: entre laudos e penas, a trajetória de um preso incorrigível (1948-1980)”, Dissertação de Mestrado, UNIFESP, 2023. É professora de História na Rede Pública estadual e atualmente dedica-se à pesquisa sobre as relações entre Medicina Legal e controle social de trabalhadores e delinquentes na cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Contato: vieira.santos@unifesp.br
Dirceu Franco Ferreira
Dirceu foi doutor em história pela Universidade de São Paulo, é membro fundador do Grupo CoPALC – Colonização Penitenciária na América Latina e Caribe, juntamente com pesquisadores da França, Argentina, Peru e Brasil. Sua dissertação de mestrado foi sobre a Rebelião dos presos na Ilha Anchieta, SP, em 1952. No doutorado, analisou as relações entre insurgências e reformas prisionais em São Paulo e no Rio de Janeiro, entre 1940 e 1961. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8709326126834993
Esse episódio contou com as vozes de:
Jorge Maia
Jorge é poeta, contista, roteirista audiovisual e integra o grupo de teatro e percussão corporal “Tuc Boys” desde 2007. Nascido e criado na zona sul de São Paulo, no bairro do Capão Redondo, em 2018 o escritor publicou, junto a outros poetas brasileiros e africanos, a Antologia Africanos – Versos, Textos e Pretextos, em uma parceria da Editora Ler e Escrever e Editora Alupolo. Jorge também é historiador e professor de História pela UFRJ, palestrante sobre educação e práticas antirracista, doutor em Educação pela UFRJ. Nessa área, foi colaborador em publicações acadêmicas, com artigos em revistas científicas e de divulgação, assim como no livro História Oral e educação – Experiência, tempo e narrativa, publicado pela Editora Letra e Voz.
Juliana Martins
Bióloga, Mestre em Gestão de Projetos de Conservação e Doutoranda em Políticas Ambientais.
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